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Rodrigo: Lírica amorosa é poesia menor? Frederico: Não necessariamente. A qualidade independe do tema. Não é o assunto que faz um poema ser maior ou menor. É o tratamento: tanto formal quanto semântico. Assim como há poemas de amor absolutamente medíocres, há aqueles maravilhosamente bem compostos. O que os separa é como tratam o amor e, principalmente, a linguagem. Creio que nos tempos de hoje ainda é possível falar (e bem) de amor, ou de sexo e carinho. Há, no entanto, toda uma tradição no Brasil de poesia amorosa piegas, sentimentalóide, repleta de lugares comuns. Por isso, muitos poetas fogem: evitam falar de amor para não cair no chavão. Como eu sempre me guiei pela idéia de Augusto de Campos (um poeta que escreveu vários poemas de amor incríveis!) de que “poesia é risco”, lanço agora o meu “Cantar de amor entre os escombros”, que reúne os poemas de amor que escrevi durante os últimos vinte anos, além de apresentar diversas composições novas. Já ouvi dizer que sou um poeta “muito frio e formalista”. Resolvi, então, organizar este livro, em parte para lembrar aos leitores de todos estes poemas de amor que já escrevi. Rodrigo: "aos gritos/antegozava". Onde mora o antegozo? O neologismo é um recurso de invenção pós-moderno? A utilização da gíria enriquece o discurso poético? Frederico: O verbo “antegozar” é dicionarizado. Segundo o Dicionário Houaiss, significa “gozar (algo) antes da sua realização” e já aparece na nossa língua desde 1881. Portanto, não se trata de um “neologismo”. Mas mesmo que não fosse dicionarizado, seria um verbo perfeitamente “formável” dentro das regras da nossa língua. Creio que uma das funções do poeta é a de despertar a atenção para as palavras, sejam elas criações suas, gírias, termos em desuso, etc. Assim, a poesia não ter pudor de incorporar qualquer registro lingüístico. O poeta pode e deve utilizar todos os recursos lingüísticos que contribuam para enriquecer seu texto. Não “enriquecer” no sentido parnasiano, tão em voga hoje em dia, mas agregando ao poema “a contribuição milionária de todos os erros”, como já o disse Oswald de Andrade. Rodrigo: Como encara o discurso daqueles que minimizam o impacto da poesia concreta? Por que ainda faz poesia concreta? O que o concreto tem para ser tão criticado? Frederico: Encaro como uma pobreza mental enorme. A poesia concreta abriu as portas para todas as possibilidades de invenção na poesia. Desbravou inúmeros caminhos que ainda esperam ser trilhados. Aqueles que a criticam tão arduamente de certo não estão dispostos a continuar a busca de uma poesia disposta a se reiventar a cada poema. Preferem seguir pelo já conhecido. Como já dizia Gregório de Matos, “as bestas andam juntas mais ornadas / do que anda só o engenho mais profundo”. Quanto à minha poesia, nunca foi concreta. Apenas reconheço o que a poesia concreta fez, e procuro partir daí. Não negá-la ou esquecê-la, mas incorporá-la ao meu trabalho para seguir em frente, procurando novos caminhos. Um poetinha neodrummondiano medíocre (pleonasmo) certa feita disse que essa postura é arrogante e narcisista. Arrogantes e narcisistas me parecem exatamente aqueles que querem rasurar os momentos mais criativos e ousados da poesia brasileira. Esquecer o que houve de bom. Rodrigo: Além de devorar miragens o que duas linguas podem realizar de poético? Frederico: Tudo! Nós podemos fazer tudo com as palavras. A desgraça é que a maior parte das pessoas se policia e nada faz. Nem com as palavras, nem com o corpo... Rodrigo: "beleza distante/diz tanto". De perto todo mundo é igual? Frederico: Não. De perto, ninguém é normal... Rodrigo: Por que ela que fumava maconha e você é que chapava? Frederico: Está evidente no poema, que é bem claro e direto. Eu chapava porque ela era linda... E não fumava maconha porque sempre odiei as drogas (incluindo o álcool) que alteram a nossa percepção da realidade. O mundo, quando visto com os olhos da curiosidade, do interesse e da busca aguda, já é pirante o bastante. O enigma desse poema na verdade é seu título. Por que “Lá”? Rodrigo: Seus versos são carregados de eufonia. Como encara este recurso? Frederico:
Respondo com Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: “É
isto a poesia: cantar sem música. Por isso os grandes poetas líricos,
no grande sentido do adjetivo "lírico", não são musicáveis.
Como o serão, se são musicais?”
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