Entrevista
 
 
   
Balacobaco: Especial com Frederico Barbosa -  Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2002.
  
CANTANDO ENTRE OS ESCOMBROS 
Frederico Barbosa 
  
Entrevista para Rodrigo de Souza Leão
     
Rodrigo: Lírica amorosa é poesia menor? 
  
Frederico: Não necessariamente. A qualidade independe do tema. Não é o assunto que faz um poema ser maior ou menor. É o tratamento: tanto formal quanto semântico. Assim como há poemas de amor absolutamente medíocres, há aqueles maravilhosamente bem compostos. O que os separa é como tratam o amor e, principalmente, a linguagem. Creio que nos tempos de hoje ainda é possível falar (e bem) de amor, ou de sexo e carinho. Há, no entanto, toda uma tradição no Brasil de poesia amorosa piegas, sentimentalóide, repleta de lugares comuns. Por isso, muitos poetas fogem: evitam falar de amor para não cair no chavão. Como eu sempre me guiei pela idéia de Augusto de Campos (um poeta que escreveu vários poemas de amor incríveis!) de que “poesia é risco”, lanço agora o meu “Cantar de amor entre os escombros”, que reúne os poemas de amor que escrevi durante os últimos vinte anos, além de apresentar diversas composições novas. Já ouvi dizer que sou um poeta “muito frio e formalista”. Resolvi, então, organizar este livro, em parte para lembrar aos leitores de todos estes poemas de amor que já escrevi.  
   
  
Rodrigo: "aos gritos/antegozava". Onde mora o antegozo? O neologismo é um recurso de invenção pós-moderno? A utilização da gíria enriquece o discurso poético? 
  
Frederico: O verbo “antegozar” é dicionarizado. Segundo o Dicionário Houaiss, significa “gozar (algo) antes da sua realização” e já aparece na nossa língua desde 1881. Portanto, não se trata de um “neologismo”. Mas mesmo que não fosse dicionarizado, seria um verbo perfeitamente “formável” dentro das regras da nossa língua. Creio que uma das funções do poeta é a de despertar a atenção para as palavras, sejam elas criações suas, gírias, termos em desuso, etc. Assim, a poesia não ter pudor de incorporar qualquer registro lingüístico. O poeta pode e deve utilizar todos os recursos lingüísticos que contribuam para enriquecer seu texto. Não “enriquecer” no sentido parnasiano, tão em voga hoje em dia, mas agregando ao poema “a contribuição milionária de todos os erros”, como já o disse Oswald de Andrade. 
   
  
Rodrigo: Como encara o discurso daqueles que minimizam o impacto da poesia concreta? Por que ainda faz poesia concreta? O que o concreto tem para ser tão criticado? 
  
Frederico: Encaro como uma pobreza mental enorme. A poesia concreta abriu as portas para todas as possibilidades de invenção na poesia. Desbravou inúmeros caminhos que ainda esperam ser trilhados. Aqueles que a criticam tão arduamente de certo não estão dispostos a continuar a busca de uma poesia disposta a se reiventar a cada poema. Preferem seguir pelo já conhecido. Como já dizia Gregório de Matos, “as bestas andam juntas mais ornadas / do que anda só o engenho mais profundo”. Quanto à minha poesia, nunca foi concreta. Apenas reconheço o que a poesia concreta fez, e procuro partir daí. Não negá-la ou esquecê-la, mas incorporá-la ao meu trabalho para seguir em frente, procurando novos caminhos.  Um poetinha neodrummondiano medíocre (pleonasmo) certa feita disse que essa postura é arrogante e narcisista. Arrogantes e narcisistas me parecem exatamente aqueles que querem rasurar os momentos mais criativos e ousados da poesia brasileira. Esquecer o que houve de bom. 
   
  
Rodrigo: Além de devorar miragens o que duas linguas podem realizar de poético? 
  
Frederico: Tudo! Nós podemos fazer tudo com as palavras. A desgraça é que a maior parte das pessoas se policia e nada faz. Nem com as palavras, nem com o corpo...  
   
  
Rodrigo: "beleza distante/diz tanto". De perto todo mundo é igual? 
  
Frederico: Não. De perto, ninguém é normal...  
 
  
Rodrigo: Por que ela que fumava maconha e você é que chapava? 
 
Frederico: Está evidente no poema, que é bem claro e direto. Eu chapava porque ela era linda... E não fumava maconha porque sempre odiei as drogas (incluindo o álcool) que alteram a nossa percepção da realidade. O mundo, quando visto com os olhos da curiosidade, do interesse e da busca aguda, já é pirante o bastante. O enigma desse poema na verdade é seu título. Por que “Lá”?    
 
   
Rodrigo: Seus versos são carregados de eufonia. Como encara este recurso? 

Frederico: Respondo com Fernando Pessoa/Álvaro de Campos:  “É isto a poesia: cantar sem música. Por isso os grandes poetas líricos, no grande sentido do adjetivo "lírico", não são musicáveis. Como o serão, se são musicais?” 
 
  
Rodrigo: A descrição de atitudes do mundo feminino estão em muitos dos seus poemas. O homem tem que se tornar mais feminino para penetrar no mundo do amor? Ser um homem feminino não fere o seu lado masculino? 
 
Frederico: Não creio em “mundo feminino” ou “mundo masculino”. Nem em “arte feminina”, “arte homossexual”, “arte negra”, etc. Creio na “arte” em geral e lamento muito que as pessoas não se dediquem mais a ela, mesmo à arte de amar.  Sou contra qualquer “teoria de gênero” e a favor de toda e qualquer prática sexual. 
 
  
Rodrigo: “Moonlight in Vermont” é um soneto. Um soneto é uma peça que deve ter os catorze versos ou tem que ter também toda a estruturação rítmica, de rima e métrica? 
 
Frederico: Nenhum poema “deve” ser assim ou assado. Cada poema é um problema.  Uma forma fixa, como o soneto, pode sofrer um sem número de alterações, adaptações e corrupções... Impor limitações para o fazer poético não faz o menor sentido. Certa feita, quando eu estava na Faculdade de Letras da USP, um professor afirmou que “um poema deve ser julgado pela quantidade de carga metafórica que contém”... quase tive uma sincope e lhe perguntei se ele considerava Wando um bom poeta. Ele se sentiu ofendido. Mas eu argumentei que, segundo o seu critério, “Fogo e Paixão” é um dos poemas mais extraordinários da nossa língua: “Você é luz / é raio, estrela e luar / manhã de sol...” Percebe quantas metáforas, uma atrás da outra?  
 
  
Rodrigo: Quando nenhuma metáfora traduz a falta? 
 
Frederico: Sempre que a falta for muito intensa e a imagem nem tanto. É preciso que a linguagem seja tão intensa quanto o sentir. Aí temos poesia densa. Metáforas geniais para traduzir a falta: “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...” (Chico Buarque de Holanda) “Toda saudade é a presença da ausência de alguém....” Gilberto Gil. 
   
 
Rodrigo: Por que escreve? 
 
Frederico: Citando Baudelaire, diria que escrevo para tentar “produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo!” 
 
  
Rodrigo: Para que serve a poesia? 
 
Frederico: Do jeito que a coisa anda nesse país, para enganar o estômago!  
  


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