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Jorge Lucio de Campos
No que tange ao primeiro aspecto – e numa atenção, sobretudo, às duas séries (‘Formas de sentir’ e ‘Nós/Paisagens’) especialmente compostas para a coletânea – é possível afirmar que a poesia de Frederico se move no vazio de um tópos linguístico deliberadamente descentrado, por vezes desvairado em sua recorrência ‘solta’ de imagens coletivas – nunca definitivamente acabadas, apenas bosquejadas – ou melhor, “tatuadas na retina (...) (de um) olhar que segue vidrado” (cf. ‘Desenhos’), atravessado, o tempo todo, por capturas semânticas de inesperada procedência. Sua contundência se situa não tanto no olhar ou no ver, quanto no tentar expressar, labirinticamente, o que já era labirinto, vertigem, reverberação na própria percepção ruinosa (um pouco benjaminiana) da agoridade. Clenir fala ainda da memória, da poesia nela mesma, do mundo, de recortes do cotidiano, da angústia de ser em tempos convulsos, mas tudo isso converge para uma fabulação precária do hodierno que é a cara da coletânea: mais imagem que coisa, antes espetáculo que ritual, condição especular de cena efêmera, capturável pelo discurso como uma fotografia não-legível, porém fruível num relance de selvageria. Contundente, o olhar paira sobre o que é olhado sem propriamente vê-lo, paralisando, diretamente, o ato significante, no seu máximo possível, para só então, a partir daí, tentar dissecar-se (olhar-se olhando) junto com a própria palavra, como um Perseu, invisível e aéreo – mas ainda temente do poder de petrificação das Górgonas – brune seu escudo (a linguagem) de modo a trabalhar não com o que este reflete, mas com o próprio reflexo, com o próprio rebrilho do que é dito em sua gratuidade de dar-se. Segundo esta lógica de contundência, em Cantar de amor, palavras e coisas pouco se permitem em termos de permuta, cada uma apenas sendo o que é no torpor da outra. Quanto ao segundo aspecto, Frederico propõe um tratamento do elemento poético que privilegia sua capacidade de desvelamento conceitual (o que considero, particularmente, admirável) e não sua potência de ocultamento pela metafóra. Prioriza sua possibilidade de matéria e não seu vigor de componência. Se, por um lado, procura distender sentidos ‘instituídos’ rumo a polissemias improvisadas, pelo outro, recompõe, nomadicamente, os resíduos resultantes, à maneira das tesselas de um mosaico ou de um amplo patchwork neoplasticista. Como que imobilizada, a palavra ora é quebrada, ora despedaçada, ora anatomizada até se transformar em imagem sem som (mancha), som sem sentido (ruído) e sentido sem senha (gagueira) – num espalhamento imagético-sintático que acaba sendo um surpreendente traço estilístico a atravessar o corpo do livro. Extrair palavras-outras de palavras-mesmas, desfazer o grámma do que é dito, utilizando seus componentes para dar (propor) sentidos ligeiros ao que é (ou funciona como real), aliando esse protocolo à tentativa de dizer o máximo possível sobre tudo que hoje – ao menos aparentemente – faz sentido, é, a meu ver, o grande mérito dessa nova coletânea de Frederico que, em um de seus mais sintomáticos momentos, afirma que “nenhuma metáfora / traduz a falta / nenhuma imagem / exata” e, em outro, resume a junção daqueles dois aspectos em que o que pode ser dito, em termos poéticos, parte da contundência de ser, mas só se completa, minimamente, no apuro da forma, na melhor das opções possiveis de dizê-la, ou seja, “como paisagem / explodindo a geometria”. Novembro
de 2002.
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