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Sob os escombros,
a poesia
Linaldo
Guedes
A tradição lírica na literatura mundial sempre foi
recorrente. Luiz Vaz de Camões é o maior ícone poético
desta tradição, com suas redondilhas e sonetos. Geir Campos
já dizia que nos sonetos do grande poeta português estão
os seus temas de poeta “maior”: o desconcerto do mundo, as mudanças
(que o tempo faz em tudo), a saudade de um bem talvez jamais experimentado,
e, entre outros assuntos, o amor.
Ah, o amor na visão de Camões! “Amor com esperança
já perdida,/ Teu soberano templo visitei;/ Por sinal do naufrágio
que passei,/ Em lugar dos vestidos, pus a vida”. Sentimento que o fez construir
clássicos, como o célebre “amor é fogo que arde sem
se ver;/ É ferida que dói e não se sente;/ É
um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer”.
É inspirado nestes e em outros versos camonianos que me deparo com
a leitura de “Cantar de Amor entre os escombros”, do paulista/pernambucano
Frederico Barbosa. Lançado no ano passado, o livro faz parte da
coleção Alguidar, da Landy Editora, cuja obra de estréia
foi “A regra secreta”, do também pernambucano Sebastião Uchoa
Leite. Trata-se, na verdade, mais de uma coletânea com poemas já
publicados nos três livros anteriores de Frederico e alguns inéditos
feitos especialmente para esta obra.
Na verdade, “Cantar de Amor entre os escombros” fala do cotidiano de uma
relação quase sempre em busca de escapar das ruínas
que cercam o coração. Clenir Belezzi de Oliveira foi, aliás,
muito feliz na apresentação, quando diz: “É difícil
amar em tempos de escombros. Mas não será difícil
para o leitor amar esta obra em qualquer momento. Este livro de amor há
de durar para além do tempo em que o ódio cessará
de produzir escombros”.
Correto. Frederico Barbosa fala, neste livro, da resistência do amor
aos escombros. E como encanta perceber a autodefesa do seu eu-lírico
no cultivo diário do amor! Sim, porque é fácil amar
na fase inicial da atração, do encantamento. Difícil
é manter este sentimento quando a casa parece cair e aparecem as
primeiras escaramuças do dia-a-dia (tão bem descritas por
Gabriel García Márquez em “O Amor nos tempos de cólera”).
Em “formas de sentir”, primeiro capítulo do livro, Frederico Barbosa
detalha as formas do corpo e a troca de olhares que (ferino) “atira” para
conquista. Todo amor tem seu perfume, e Frederico Barbosa, que não
fica alheio a esses cheiros, com seu estilo bem peculiar conclui: “contra
olfatos/ não há ar/ gumentos”. Vozes eróticas, sabores
na ponta da língua e as seis formas do sentir são mencionadas
pelo poeta em seu tratado lírico.
“Sua voz, sua visão”, segundo capítulo, trata do indecifrável
sorriso, da beleza distante (até meio platônica, por que não?),
do sarro forçando o jeans, da já conhecida (para seus leitores
fiéis) “paulistana de verão”, sobre os dribles para não
sair na fotografia, descreve a anatomia do desejo e arremata em contradição
lírica: “Ao longe, uma voz/ se perde,/ labirinto, em mim”.
“Sussurro suave e vivo” é um capítulo puramente musical.
Convém lê-lo ouvindo Billie Holliday. Aliás, no poema
“Blue Moon”, que homenageia a diva do blues, afloram assonâncias
para cantar que a “sua voz sussurra suave e viva/ sob o som blue das incertas/
sílabas suas soltas certas”. Depois, é a vez de citar Ella
Fritzgerald ou descrever o castelo do poeta em que circulam, vivos, “tantos
Dukes, Claudes, Luchinos/ e vários James amigos/ nossos companheiros
de sempre”.
“Na caverna escura”, o capítulo seguinte, é um pouco Mário
de Andrade, a falar sobre a avenida Brasil e a “lente de aumento/ no amor
e na impaciência” diante do semáforo. Vão por ai os
poemas desta parte do livro, descrevendo o cotidiano da metrópole
que gera sacadas líricas, como as da série “Raro cantar”:
“Primeiro, a cidade nos escondia/ sob os relógios do cotidiano”
ou “Cheios de nós, cegos entrelaçados,/ brotávamos
luz, em meio à cidade” ou o poema que vale o livro:
“Hoje, continuamos,
dia a dia,
Raro cantar de amor
entre os escombros.
Margens sólidas
e escapes se cavam
na tragédia
impressa e apressada.
Em nosso canto íntimo,
cercados
de livros, brancas
sombras, recompensas,
Vivos esforços,
às vezes um verso,
tramamos nós
ao vento, desatados.
Insistimos, como
pouco tenazes,
no sim: de fulgir
no sono sem longe.
Cheios do resto,
sem certo traçado,
plantamos planos
de velhas idades”.
“Sono
silêncio”, “de sonhos de ser”, “este mar, meu coração” e
“revolução permanente” são os outros capítulos
do livro, sempre seguindo na mesma linha de cantar a lira do amor sob aspectos
vários.
Frederico Barbosa reforça, nesta obra, o conceito
daqueles que já o incluem entre os grandes nomes da poesia brasileira
a partir da década de 90 (como este resenhista). Usa aqui e acolá
dos recursos concretistas que tanto o influenciaram nos primeiros livros.
Mas o que fica de “Cantar de Amor entre os escombros” é o conteúdo
unitário e lírico sobre os caminhos e descaminhos do amor.
Para quem pensa que escrever sobre as armadilhas de uma relação
amorosa é brega, Frederico Barbosa nos dá uma lição:
só é brega para quem não sabe amar com um tom poético.
Esta obra, com certeza, agrada aos que ainda amam entre os escombros. E
também aos idiotas que não resistiram a esses mesmos escombros.
Resenha publicada no
"Correio das Artes", suplemento literário do jornal A UNIÃO,
de João Pessoa-PB, 15 de fevereiro de 2003. |