Resenha de Rodrigo de Souza Leão
 
Cantar de Amor Entre os Escombros
   
Rodrigo de Souza Leão
     
    "Falar de amor é fácil", como alardeia Ivete Sangalo em uma canção pop? Não. Falar de amor, escrever sobre o amor é a coisa mais difícil em tempos pós-modernos. Escrever, sem banalizar o tema da escritura, é sempre uma coisa difícil, mas como então não cair nas facilidades do "eu te amo amor" e fazer arder o fogo que arde sem se ver? 
 
     Paul McCartney — na década de setenta — dizia que havia muitas músicas de amor no mundo: a maioria delas, banais. O primeiro passo para tratar de um tema tão massacrado e tão comum para todos os seres humanos seria o de não diminuir a sua vontade de potência. O amor tende ao infinito. Tende ao tudo. Mas também pode ser dividido. O amor sexual. O amor amor. O amor ao próximo. O amor amizade. O poeta tem que tratar o tema com o distanciamento de um toque e a proximidade de um beijo. Não há mais lugar para excessos. Para amores exacerbados. O amor é rápido. Não é rasteiro, mas reflete a pulsação eletrônica dos chips. A paixão passeia nos chats. As ereções estão dentro dos jeans. As tardes com as meninas são regadas à erva. 
 
METAMORFOSE
 
     A tradição brasileira encontra a lírica amorosa inflada em diversos momentos. No romantismo as musas vestiam longos vestidos e tinham a pele branca de porcelana. Hoje em dia, a musa usa jeans e mostra o umbigo numa calça Saint-Tropez, num bronzeado marrom-bombom. Tudo mudou e tudo muda ou tem que mudar. Afinal, ainda vivemos na avalanche moderna da novidade pela novidade, ou em tempos onde revigorar o antigo, alcança o status de grande arte. 
 
FAZER UM VERSO DE AMOR É FÁCIL?
 
     Com tantos poemas já escritos e depois do grande vendaval lírico-amoroso — comandado por Vinicius de Morais, que assolou positivamente a nossa literatura com versos eternos enquanto duram os relacionamentos — é a vez do amor voltar à cena. Volta como temática na poesia de Frederico Barbosa. Volta em versos de alto impacto no livro Cantar de Amor Entre os Escombros, pela editora Landy. 
  
     O livro do poeta Frederico Barbosa é uma coletânea de poemas selecionados ao longo dos últimos anos. Nele é dado ao tempo pós-moderno o que o tempo atual necessita: uma linguagem na qual a tensão estrutural do poema — passando pelo minimalismo funcional — é um dos pontos do ápice da poética. Sem se esquecer do conteúdo poético: toda uma análise, quase que sociológica, dos tempos em que vivemos.  
 
O POETA NO PÓS-TUDO
 
     Frederico Barbosa esbanja rigor formal em versos de alto impacto emotivo. Neles o poeta utiliza todo o repertório técnico para conquistar o leitor. Na parte II do poema Fragma Dias (dança em três atos) há uma exuberante eufonia provocada por rimas arquitetônicamente urdidas: "fases ocultas/escutas/estrela forma frase//renasce todo/segundo/agudo permanece//em movimento/fermento/lento pudor por dentro". A musicalidade a cem por hora dispara o coração mais apagado de afeto e projeta a possível polifonia, mesmo em versos nos quais a voz maior é a da paixão.
    
     Tudo que o poeta faz é alçar o amor à categoria das coisas muito especiais, o que não é bem o que vem ocorrendo em tempos do devorar o outro de qualquer forma. O que o poeta deseja é um olhar para o afeto, para a coragem de dois seres se dando, tentando o religare, uma ligação mais forte com o próprio animus: no tudo que o amor tem de religiosidade mais exacerbada.
 
     Enfim, Frederico Barbosa faz o amor parecer um tema fácil. Faz a gente pensar que é fácil amar. Mas em dias de tanta rarefação amorosa, em que o velho fogo não arde mais como antes, o livro é um afrodisíaco. Ao final da leitura de versos com tão fina estampa é vontade superior que o seu amor esteja próximo, para raros momentos de beleza. O amor é terno e eterno. O amor é o não se contentar entre os escombros e pedir mais e mais: mais poesia.
     
20 de outubro de 2002.
 
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